
São Mateus era um cobrador de impostos, um publicano, quando aceitou o chamado de Jesus para ser um de seus apóstolos. Cobrava impostos e taxas para o Império Romano!
O Estado Romano estimava quando uma província devia arrecadar e leiloava a cobrança. Portugal fazia o mesmo em suas colônias e tivemos, no Brasil, os contratadores (arrematantes). Este sistema dava margem a muitos abusos. Os publicanos eram odiados por isso e por estar a serviço de um estado estrangeiro.
Deixar de pagar impostos era uma atitude patriótica.
Nos evangelhos os cobradores de impostos eram desprezados, nivelados com os pecadores e os pagãos. Na história do Brasil, a cobrança de impostos foi o estopim para as lutas pela independência, sendo indevida a denominação de inconfidentes para os que se levantaram contra Portugal.
Jesus teve uma atitude inovadora também em relação aos cobradores de impostos: Mateus\Levi foi um dos apóstolos (Mateus 9:9, Marcos 2:13-17 e Lucas 5:27-28) ; comeu na casa de Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos em Jericó (Lucas 19:1-10).
Nas ocasiões em que sou tentado a condenar os outros, lembro-me do Papa Francisco: “Quem sou eu para julgar?” ´
Eu fui um cobrador de impostos por quase quarenta anos. Em 1976, passei num concurso duríssimo e meu pai, temendo que a perseguição da ditadura impedisse a minha posse, falou com meu primo, José Luiz Borges, então prefeito de São Gotardo e ele recorreu ao deputado Sinval Boaventura. Devo a eles a minha entrada no serviço público.
A elevação do limite de isenção do Imposto de Renda para R$5.000,00 é resultado de uma longa luta do Sindifisco (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal), do qual fui um dos fundadores e atualmente sou o Secretário-Geral. Defendemos sempre um sistema tributário mais justo, menos regressivo.
Fomos também nós os responsáveis pela criação da Corregedoria do Ministério da Fazenda, tendo lançado a campanha de que “A corrupção é uma via de mão dupla”, para que eventuais desvios de comportamento fossem devidamente apurados e punidos, mas que isso também atingisse os corruptores.
Na Alfândega, combatemos a entrada de armas, drogas, produtos falsificados, pragas que podem destruir plantações inteiras, entre outras atividades importantes.
Com a arrecadação dos tributos internos fornecemos o recurso para o funcionamento do Estado, da educação, do sistema de saúde, da segurança, da Justiça...
Juntos com outros setores do serviço público federal, estadual e municipal, enfrentamos o crime organizado, do que são exemplos as operações “Carbono Oculto” e” Refit”, que desmascarou a gangue dos combustíveis, ligada ao PCC (Primeiro Comando da Capital). As grandes organizações criminosas precisam “lavar” o dinheiro que conseguem com seus crimes e o fazem por meio de sofisticados planejamentos tributários e da criação de empresas de fachada.
Ninguém gosta de pagar tributos, é verdade, mas é com eles que asseguramos os avanços civilizatórios, essenciais para alcançarmos vida digna para todos e a tão almejada paz social.
Tenho por isso um justo orgulho de ser Auditor Fiscal.
Todo mundo sabe completar o título desta crônica, pois, emocionados, a repetimos ao reencontrar parentes ou amigos que se reúnem para a despedida de uma pessoa querida. E a frase morre ali mesmo. Cumpriu seu papel.
Fica em nós também o arrependimento de não termos dito o quanto gostávamos da amiga que se vai, do parente com quem não nos reconciliamos a tempo.
Chove agora em Belo Horizonte, quando escrevo, e a chuva cai dentro de mim, entristece como um tango dilacerado ou um bolero triste.
Algumas vezes, há também um pouco de alegria, como eu senti ao ver o quanto a ÂNGELA ROMEIRO FROTA era querida em Brasília, de onde partia para passar as férias e muitos carnavais em São Gotardo. Em um turbilhão as lembranças me invadem, embaladas pelas belas músicas tocadas por um dueto de amigos.
E eu me sinto mais só no Planalto Central, concordando com a Dodora, minha irmã que diz:
“A gente devia ser igual aos índios, quando se mudam, vão todos juntos.”
Ângela era filha de Stela e Pedrinho Romeiro.
Dedico esta a crônica a Maria Rita e Antônio, Neide, Reinaldo e Márcia, seu irmão e irmãs e a Paula, sua filha e amiga.
Luiz Sérgio – BH, 10.02.2026

Nos anos 60, eu li em algum lugar que o corpo fala, que memorizei como sendo um livro de Rollo May e descubro, ao pesquisar para escrever esta crônica, que a nossa mente nos engana. O livro, lançado em 1980, obteve enorme sucesso e inúmeras reedições, é do Psicólogo Pierre Weil e Roland Tompakow.
A gente era mais simples, apenas corpo e alma. Depois veio a mente e sua divisão. Passamos a saber que temos também um subconsciente, graças a Freud e Jung.
A vida era mais simples e o médico de família ou o farmacêutico batia o olho e dizia o que estávamos sofrendo. Agora, existe especialista em mão, fundo do olho e não sei o que mais.
Deixo as divagações e volto para o meu corpo. Ele vinha mandando recados, sob a forma de cansaços, de sono e pequenas dores. Eu seguia num ritmo frenético de diretor do Sindifisco Nacional, terminando o dia com tarefas pendentes, de voluntário para a elevação de escolaridade, de promotor da poesia, da cultura da paz, colaborador do Jornal Daqui.
Até que ele disse: para! Eu só consegui dirigir até o Café da Terra, na volta para BH. No dia seguinte, precisei de ajuda para levantar da cama e fomos para o hospital da Unimed, superlotado, para um dia inteiro de espera, exame, espera e nada de resposta.
Após as 18h da segunda feira, ainda faltava uma ressonância magnética, que dificilmente seria feita neste dia, mas, se eu saísse de lá, teria que reiniciar a via crucis. Fui para o centro de enfermagem, apinhado de gente, passar uma “longa jornada noite a dentro” numa poltrona reclinável.
Registro que, de todos os médicos e médicas, apenas um jovem foi frio, insensível e não atencioso, e parabenizo os demais pelos esforços em amenizar os problemas dos pacientes.
A última orientação foi que eu esperasse, pois me chamariam para o exame. Daí a pouco, iniciaram um soro na veia.
Neste cenário estranho, onde deveria reinar o silêncio, criei mentalmente uma longa peça teatral de moderado terror, tendo ao centro uma senhora bem vestida, com três voltas de pérola no pescoço e que, desde a triagem, manifestava em alta voz, sua revolta: “Eu tô com fome! ...Vou fazer um BO e mandar prender vocês todos!...Quero mijar!...
E eu ficaria esperando até o fim dos tempos, se não fosse a Dodora ir perguntar. Daí fomos encaminhados para o exame, depois informados que ele não poderia ser realizado, algum tempo depois encaminhados para uma consulta e escolhermos fazer o exame fora.
Saí com uma receita pesada e o diagnóstico de que estava com pneumonia e covid, o que seria quase uma sentença de morte há algum tempo atrás.
Eu não sentia nada, a não ser uma dor forte na região da cintura, que dificultava meus movimentos. Neste momento, passei sete dias sonolento e tenho a oportunidade de usar a resposta fantástica do Chico Anísio ao Jô Soares:
“Medo de morrer? Não. O que eu tenho é pena...”
Ele e o Wado eram os beques do time do União, que fez partidas memoráveis contra o Sgryma do João do Samaria e do Paulo do Gabrilin, o primeiro um atacante completo e o Paulo com um chute fortíssimo, rivalizando com nosso ataque, com o craque Tarcísio do Lipran e o Luiz Roberto que lembrava o Evaldo do Cruzeiro ou o Dida do Flamengo. Tenho a flâmula com o genial slogan: “Adão não se vestia porque o Samaria não existia”.
Pois é, o Wado tinha furado a fila na lista que ele levava para os velórios e abordava quem estava mal de saúde e dizia: “Ei, fulano, se cuida, pois você é o próximo da lista!”
O Humberto do Ciro Franco tinha chegado antes e disse para São Pedro: “Não vou entrar agora, não, porque gente de São Gotardo não chega aqui sozinho, vou esperar o Julinho para entrarmos juntos.”
Um pouco antes tinha chegado a minha amiga Abadia, do Curso de Contabilidade no Prédio Amarelo, amizade que se estendeu a BH, onde a reencontrei. Quando ela ouviu a prosa do Humberto, falou que também ia esperar e ele contou que tinha sido meu colega no Afonso Pena.
Meu primo merecia estar numa das tragédias de Shakespeare, num dos romances de Gabriel Garcia Márquez ou numa crônica do Nélson Rodrigues, pela farsa de que foi vítima e que o impediu de voltar a nossa terra durante anos. Situação enfrentada por ele com a dignidade do silêncio, pois eu, pelo menos, nunca ouvi dele nada a respeito.
Ele tinha um humor fino, uma presença de espírito diferenciada e bebia com elegância, chegando inteiro ao final de nossas festas ou farras.
Zé Eustáquio, meu irmão, foi à nossa terra e, no sábado, morreu alguém, o que se repetiu no sábado seguinte. O Julinho, ao se encontrar com ele, no domingo de manhã falou: “Zé, não é por nada não, mas você podia espaçar um pouco suas vindas...”
Ele teve a felicidade de viver um grande amor com a Rita Londe, bem humorada e positiva como ele, que merece a gratidão de todos nós que o estimávamos pela dedicação e carinho com que trilhou junto a ele as sendas e veredas de seus últimos passos por aqui.
Antes de terminar, devo registrar que a minha defesa tinha também o Luiz Fernando, da Aída, o Marquinho, meu irmão, e a gente poderia lançar mão do Fernando da Ester, o que não invalida o título desta crônica, pois a saudade dos dois que já se foram é muito grande.
Não posso deixar de registrar uma grande lição que recebi dele. Comentei com ele que o papai estava perdendo dinheiro no Armazém, pois vendia fiado e recebia pelo valor do dia da compra, quando o freguês vinha pagar, depois do dia da poupança, em tempos de inflação galopante; ele me disse: “O Padrinho está ganhando anos de vida...”.
Descansem em paz, Abadia, Humberto e Julinho. Nossa vida fica mais triste sem vocês.
Eu vivi em São Gotardo na infância e, no início da adolescência, sai para o Seminário dos Dominicanos, em Juiz de Fora, indo depois para Belo Horizonte, onde estou desde 1964. Passei a ser um “estudante de fora”. Desde então tenho visão de mundo e ideias fora das trilhas por onde andam a maioria dos familiares e conterrâneos. Uma delas é valorizar pessoas discretas, que passam mais suavemente pela vida e tornam mais leve a vida dos que têm a felicidade de conviver com eles.
Destaco, nesta crônica, o sr. João Olímpio de Resende, o Joanico que eu sempre via como se tivesse acabado de sair do banho. Ressoam ainda nos meus ouvidos as referências elogiosas que a ele faziam sempre meu pai e minha mãe.
Nasceu nas Guaritas e tinha uns 10 irmãos, todos habilidosos o que é uma característica dos Resendes. Adalberto foi o primeiro mecânico de automóveis da nossa cidade, Adolfo, vendedor de joias e contador de piadas e causos, : Alberto era exímio tocador de violão, Catarina foi uma ótima professora, nos preparava em dois meses para o exame de admissão ao ginásio, um vestibular entre o grupo e o ginásio, Heitor teve uma casa de material de construção, em BH, Inocêncio teve um hotel, Joanico tocava gaita muito bem e Jane, sua filha, tocava e ensinava acordeom, José Olímpio (Juca) foi o pai dda Conceição do Dézinho, craque do meio de campo do Sparta, Juvenal era o pai da Iracema, esposa do Téo, pelo que merece meu profundo respeito, Leda e Olegário, que foi taxista em BH e era uma referência para os sangotardenses em BH, Olímpia foi dona da Gráfica Orion, em BH, e Otávio foi um especialista em construir carros de boi.
Pela descrição sintética, vemos o dom para a música e que sempre foram bons comerciantes, o que foi passado, por exemplo, para o Jáder e dona Lea, que também ensinou as artes do bordado a inúmeras jovens.
Adolfo queria voar e não sabia como até que teve uma brilhante ideia. Prendeu 6 urubus, deixando-os sem comer por 4 dias, amarrou-os num grande couro de boi, adaptou pequenas varas de pescar sobre cada um deles e, do quintal da fazenda levantou voo até o Salto, de onde retornaria triunfante para o Arraial da Confusão. Quando queria mudar de direção, abaixava a carne até os urubus deste lado. Foi um sucesso pela metade, pois, quase no fim da primeira etapa, um caçador assustado com o estranho bicho voador atirou no tapete voador, derrubou o balaio de carne, atrás do qual voaram os urubus, impedindo a conclusão deste feito memorável, que precisava ser levado ao conhecimento da humanidade.
Quem sabe esta crônica mude os livros de história das invenções. Viva São Gotardo, viva Joanico e seus irmãos!
Luiz Sérgio, 26 de janeiro de 2025 - Com a colaboração do Geninho, do Reinaldo e do Marcinho, meu irmão.
É nestas árvores que os passarinhos vêm dormir, mas não vêm direto, não. Eles param nas árvores do quintal do Chico Moço, a maioria nas jabuticabeiras e os retardatários nos pés de fruta menores. Repetem isso toda manhã: antes de sair cada um para o seu lado, passam nestas árvores. Dizem que é para programar o dia e, ao final, contar o que aconteceu, num pia-pia fantástico.
A rodoviária está vazia, pois já passaram os ônibus vindos do Triângulo no rumo da capital. Cessou a disputa dos anunciantes,” bar de baixo, bar de cima,” chamando para o almoço no Bar Sparta ou no Bar do Vicente Maia.
Mais tarde, o Nilzo Leopoldino, dono do barzinho da rodoviária, colocará música clássica para a praça.
Passa o Ribite fantasiado de índio, anunciando o filme de Tarzã que lotará o Cine Serrano, os adolescentes embevecidos com a roupa sumária da Jane e as mocinhas encantadas com o Johnny Weismuller.
Começo a pensar nos apelidos da nossa gente, provocado por uma tia da capital, que dizia: “Pode alguém ter o nome de Bijeto?! Você pode não ter conhecido, mas na minha época tinha.” Como teve o Reminton Range. A família da dona Gelcira bateu o recorde: Biriba, Niquita, Batata, Bié e Buda!
Primo Levi, um sobrevivente dos campos de concentração nazista, de quem seu sou fã porque não se tornou uma pessoa amarga ou um escritor rancoroso, fala de um código de conduta invisível a determinar a maneira de agir das famílias, dos clãs familiares, dos grupos religiosos ou de outros tipos, dos habitantes de uma cidade, Estado ou País.
Uma das maiores reações coletivas espontâneas que eu, nos meus 10 anos, presenciei foi a indignação dos jogadores e da torcida do Sparta quando um jogador do time visitante fez uma falta desleal, daquelas de quebrar a perna, no Zé do Baiano, nosso maior atacante de todos os tempos e que se comportava como o Messi. Foi uma briga geral, resultado de uma raiva quase santa.
Aproveito a proximidade das eleições para homenagear nossa prefeita e vereadoras pela coragem de participar da vida pública, apesar da multiplicidade de tarefas que ainda recaem sobre seus ombros.
Estendo meu aplauso às que invadiram as barreiras invisíveis das profissões consideradas masculinas. Até um período recente, as mulheres dependiam da autorização do marido para abrir uma firma. Era natural serem costureiras, professoras e enfermeiras.
As mulheres Só puderam votar a partir de 1932.
Em 1962, não precisavam mais da autorização do marido para trabalhar fora de casa, passaram a ter o direito a herança e poder pedir a guarda dos filhos na separação. Continuavam, no entanto, a ser consideradas propriedade do pai ou do marido. O normal era permanecerem em casamentos infelizes e até mesmo abusivos. Com a lei do divórcio, de 1977, isso começou a mudar, intensificando as mudanças iniciadas com a chegada da pílula anticoncepcional nos anos 60.
Durante muito tempo as mulheres não podiam jogar futebol, pois a lei proibia a prática de esportes inadequados à sua natureza. Até o início deste século e milênio, o homem podia pedir a anulação do casamento sob a alegação de que a mulher não era virgem.
Maridos que assassinavam suas mulheres normalmente ficavam livres sob a alegação de defesa da honra e na maioria dos casos a mulher era condenada também por seus pais e irmãos.
A caminhada para um mundo melhor é longa e difícil, mas depende das mães e educadores prepararem as crianças e os jovens para uma cultura (código invisível de conduta) de paz, compaixão e solidariedade. As eleições que se aproximam é um bom momento para a escolha de representantes progressistas, comprometidos com uma sociedade mais justa. Cada um de nós é responsável pelos políticos que tantos criticam. Tomara que você possa seguir aplaudindo a vereadora ou vereador e prefeito que escolheu.
A melhor forma de encerrar esta série de artigos é ouvir, depois do Vette, o Pedrinho, o Oswaldo e o Sérgio Bueno e para nosso editor. Confesso que estou com a alma plena de gratidão e felicidade.
“Prezado Luiz Sérgio, Apreciei muito seu artigo sobre nosso saudoso padrinho e tio Clarimundo. Permita-me associar a esta homenagem expressando meus vivos sentimentos de admiração, gratidão e respeito a um homem alegre, discreto e realizador, sábio na sua simplicidade. Soube construir uma bela família e um exemplar estilo de vida. Luiz, continue escrevendo sempre, pois tio Clarimundo mereceu e merece.
Cordialmente, Pedro Soares
Mensagem do prof. Oswaldo Bueno, que foi transmitida pelo A. Sérgio Bueno:
“Como foi bom apreciar estas maravilhas de textos do Luiz Sérgio sobre o pai dele, Sr. Clarimundo Soares, de quem me lembro muito bem e que olhávamos como exemplo de homem muito trabalhador e pai de família exemplar! Além disso, era o dono do cinema, que era uma das janelas, naquele tempo, para o vasto mundo exterior! Transfira a ele meu abraço.
(Prof. Sérgio Bueno) Que texto emocionante sobre seu pai. Feliz do homem que deixa para os filhos imagens tão belas e sentimentos tão nobres. No caso de Seu Clarimundo, essas boas lembranças não ficaram apenas com os filhos, mas com todas as pessoas que tiveram o privilégio de com ele conviver.
Lembro-me perfeitamente bem dele e todas as vezes que visito São Gotardo e olho para o lugar que minha mãe chamava de “O armazém do Clarimundo”, tenho uma sensação boa com a lembrança dele e muito orgulho de contar a amizade dos filhos dele.
Viva Seu Clarimundo! - Antônio Sergio Bueno
E, finalmente, a nota do nosso Editor, que me levou a rememorar a passagem de meu pai por nossas vidas:
“Precisávamos resgatar a história de seu pai, por quem sempre nutri admiração, não sei se pelo cinema ou pela pessoa que ele era. Fico muito feliz em compartilhar com você este resgate aos nossos leitores do Jornal Daqui. Aguardamos os próximos textos.”
Zezé, do jornal Daqui"
Falarei agora do meu saudoso pai, Clarimundo Soares, como negociante e empreendedor, num País em que “o sucesso é ofensa pessoal” (Tom Jobim).
Um jovem simples e dedicado conseguiu se tornar um dos maiores comerciantes de São Gotardo. Com o apoio de minha mãe, foi comprando e construindo imóveis. Quase na mesma época, construiu o Cine Serrano e o prédio da esquina da Bento Ferreira dos Santos, onde, no segundo andar, funcionou o São Gotardo Social Clube.
Relembro emocionado que ele recebeu uma homenagem fantástica de um simples morador desta São Gotardo que ele tanto amou. Recebendo a notícia de que meu pai havia ido se encontrar com os seus nos verdes campos do Senhor, um morador anônimo fincou uma estaca na esquina de onde morava e decretou, escrevendo num pedaço de madeira, esta rua passa a se chamar Rua Clarimundo Alves Soares! Eu gostaria muito de conhecê-lo, abraçá-lo e expressar a gratidão de nossa família. Acho que ninguém mais teve uma homenagem tão grande e sincera e acredito que o Poder Público Municipal não terá a ousadia de mudar isso.
Passo a palavra para o Vette, o Pedro do Zé do Lino e para os prof. Oswaldo e Sérgio Bueno.
Luiz Sérgio Soares – 22.03.2024 – com a colaboração do Marcinho.
29 de novembro de 2022. 17h56min. - Clarimundo Soares (augusto.vette)
... Pensando nisso recordei de episódios da juventude que marcaram profundamente aquela época, proporcionados por diversos cidadãos que impulsionaram o progresso de S. Gotardo.
Um deles foi o sr. Clarimundo Soares, que como pai de família, como comerciante e como empresário primou pelo exemplo de respeito e correção; abastecia a cidade com alimentos para o corpo e para alma – comida para o físico e sonhos para a alma.
Junto com o sr. José Prados divertiu a cidade diariamente em seu Cinema com filmes e notícias vindas de longe, numa época em que não havia televisão e mais que tudo com o Clube Social que uniu e encantou toda nossa geração com horas dançantes e bailes memoráveis, que jamais se apagarão de nossas recordações.
Só quem viveu aquela realidade pode ter ideia da falta que pode nos fazer a privação de algo tão banal hoje, como músicas e notícias de um mundo de famosos, de reis rainhas, de príncipes e princesas que povoavam nossa mente em contos de fada, apenas imaginados por nossa mente ávida de novidades.
Que mistério levou o sr. Clarimundo a preencher este vazio, se não a sua vontade de conquistar a honra de criar a família com dignidade e contribuir para o progresso da sociedade e a evolução da humanidade?
Interrompo a série de escritos sobre meu pai, mas sigo indiretamente falando dele também. É porque este artigo será publicado em maio, mês das mães.
Começo lembrando de uma celebração em que eu tive a felicidade de acompanhá-la, já bem velhinha, mas lúcida e independente como foi até o fim da vida. Estavam enaltecendo as mulheres até que foram interrompidos pelo Amém, que afirmou: “Acho que mulher não é isso tudo, não...” E ele tinha razão, pois as mulheres são humanas, têm qualidades e defeitos, a maioria dos dias excelentes, mas alguns nem tanto, mas eu não estou aqui para apontar defeitos, especialmente a respeito de minha mãe.
O primeiro agradecimento é extensivo ao meu pai, pois eles nunca travaram suas disputas na frente dos filhos e pudemos crescer na ilusão de que a vida deles fluía sem entreveros.
“Minha mãe não trabalha” era o que a gente dizia das mulheres que não trabalhavam fora, como se administrar uma casa, gerindo 14 ou mais pessoas, acompanhando o crescimento da récua de filhos, fazendo o milagre de um lar funcionar e por mágica nós tínhamos roupa limpa, comida boa, bons resultados na escola, como se isso não fosse trabalhar. Não é verdade, as nossas mães trabalhavam muito. Mamãe, depois de verificar nossos deveres, ainda acompanhava os estudos das moças que, para isso, estavam conosco e ajudavam na lida da casa, não deixando que elas perdessem ano e dando de prêmio o anel e roupa de formatura.
Era uma professora formada, com um nível superior da época, tinha uma excelente memória e grande cultura. Ela cuidava da criação dos filhos e nosso pai da manutenção da família. Eles se comprometeram a dar um diploma a cada filho e cumpriram esse propósito. Pudemos estudar sem trabalhar e ganhávamos um fusquinha na formatura.
Adélia Caetano Fonseca, filha de Francisco Caetano Quito e de Ana Carolina da Fonseca, tinha uma personalidade forte e, como seu noivo disse que para ele era indiferente ela acrescentar seu sobrenome, continuou com o nome de solteira, fato inusitado até hoje.
Cozinhava muito bem e costurava para todos nós. A nossa casa ficou imensamente vazia quando ela nos deixou, mas a saudade já vai se tornando menos dolorosa, virando uma suave e boa lembrança.
Os valores deles nos foram transmitidos mais com o exemplo de vida do que com discursos morais. Meu pai, quando ia a BH alugar os filmes para o Cine Serrano, voltava trazendo os romances de sucesso na época, que ela lia depois que os filhos iam dormir. Lembro-me especialmente de dois deles: “Como era verde meu vale” e “Sepultando os meus mortos”. Além disso, ela gostava de poesia e de bons discursos, pelos quais elogiava, por exemplo, o Itagiba Melo e o Mundinho Mendes. Repetia parte do discurso do Dr. Sebastião Montandon Pereira, no RJ, no féretro de João Pessoa: “Homens como ele deveriam ser enterrados de pé, de pé como sempre viveram.” Numa excursão pelo Nordeste, foi a única a saber e cantar o Hino da Paraíba.
Era rígida em nossa educação e uma leoa para nos defender. Cheia de muitas certezas, nunca teve a sua fé abalada e participou bastante do Apostolado da Oração.
Teve uma vida ativa e intensa. Na etapa final de sua caminhada, descreveu as atividades de cada dia da semana, registrando que a quarta era seu dia de descanso.
Guardo comigo um livrão em que ela colava as poesias e pensamentos que recortava dos jornais e revistas, cuja foto ilustra este texto, e que pretendo doar para a biblioteca 'daqui”.
Parafraseava Ataulfo Alves e dizia: “Eu era feliz e sabia!” Deve ter chegado no céu, dizendo: “Eu fui feliz e sabia!”
Ps: não posso deixar de fazer, também, a merecida homenagem para Dodora Gontijo, minha esposa, e para minha sogra, Oneida.
Luiz Sérgio – 01.03.2024 – coautoria do Marcinho