Propondo-se a explorar este universo, fomos à procura delas. E nesta primeira sessão do ano, vamos conhecer uma senhora que exemplifica à perfeição a força do apelido. Estamos falando da dona Lola. Poucos a conhecem pelo seu nome de batismo, Angélica Rocha Ribeiro. Como ela mesma relembra, a origem do apelido não guarda qualquer relação com o filme alemão de Fassbinder, que popularizou universalmente tal alcunha. No texto a seguir ela revela como surgiu o apelido, mas antes disso, convém destacar que o mês de janeiro tem um sabor especial para a senhora Angélica Rocha.
Dona Lola comemorou no último dia 21 de janeiro seus 90 anos de vida. Ela própria fez questão de reunir familiares e amigos para brindar uma data tão especial. Falando em amigos, Monsenhor Eustáquio, que por décadas frequenta sua casa, veio especialmente para celebrar missa em ação de graças pelo seu aniversário.
Esta proximidade revela na verdade, um laço permanente com a Igreja, sua segunda casa. Dedicou-se a vida inteira, não apenas a seguir os preceitos cristãos, como lembrou uma de suas netas durante o evento: “Mas foi na vida em comunidade que sua vocação para servir floresceu ainda mais: como catequista, conduzindo jovens; no Apostolado da Oração e junto aos Vicentinos. Seu dinamismo, sua coragem e sua disposição constante para guiar e ajudar são dons que nos impulsionam a sermos pessoas melhores.”
Este espírito cristão foi mais uma vez confirmado ainda em seu aniversário: Ela pediu de presente aos convidados, não o que normalmente se espera, mas uma cesta básica(foto), que posteriormente seria doada para o Lar da Pessoa Idosa. Esta iniciativa rendeu bons frutos, com mais de 60 cestas arrecadadas, o suficiente para manter a entidade por 3 meses, como lembrou a coordenadora Maria Cristina da Luz. Ela encaminhou nota a este jornal em forma de agradecimento pela iniciativa: “Prezada Dona Lola, em nome da família Lar dos Idosos venho expressar o nosso mais sincero agradecimento pela doação feita ao Lar do Idoso em celebração dos seus 90 anos. O Lar do Idoso acolhe 81 Pessoas Idosas e sua iniciativa solidária faz uma enorme diferença na vida deles. É uma honra pra família Lar do Idoso receber tamanha demonstração de amor e carinho. Que Deus lhe conceda muita saúde e alegria. Exemplo inspirador de bondade. Gratidão sempre” Maria Cristina da Luz, Coordenadora e Assistente Social do Lar da Pessoa Idosa.
Nonagenária, ela tem muita história para contar. Dona de uma memória de dar inveja, relembra em detalhes de quando criança e dos ensinamentos de sua mãe, Anália Rocha: “minha mãe tinha 14 anos de idade quando foi 'dada' em casamento. Naqueles tempos era assim, a mulher não escolhia ou aprovava quem seria seu marido. De minha parte, posso afirmar que meu casamento seguiu um rumo diferente. Tive a sorte de encontrar um grande homem, que soube me respeitar como mulher e dona de meu destino. Formamos uma família maravilhosa, da qual me orgulho. Meu marido, Vicente, nos deixou há 18 anos, mas seu legado permanece vivo em nossos corações.”
Entre perdas e ganhos foi tecendo os longos fios de seu destino, sempre amparada por uma fé inabalável e aquela resiliência, virtude inata nas mulheres.
Dona Lola nasceu em 21 de janeiro de 1936, sendo a terceira de treze irmãos. De sua união com Vicente Moreira, que perdurou por 48 anos, nasceram seis filhos(entre eles, o editor deste jornal), nove netos e dez bisnetos.
Por mais de uma vez Dona Lola me disse entre um almoço e outro que não pode realizar o sonho de ser professora, mas logo compreendia que esta lacuna ela soube preencher por outras vias, outros caminhos. A sabedoria não precisa de diploma. Sorte daqueles, que como eu, puderam aprender com seus ensinamentos.
Terminando aqui, registramos a origem de seu apelido: “quando eu tinha uns 8 ou 10 anos, por ser Loura, um tio meu me chamara de “Lorinha”, e daí nasceu o apelido de Lola.



