
Afirmar que o próprio pai foi um homem sábio e bom contraria a mineirice e precisa ser justificado, o que tentarei fazer neste artigo. Primeiro, porque é que eu penso e moderar esta palavra seria faltar com a verdade. Depois, porque a sabedoria dele se estende a outros conterrâneos, como o Jaime Resende, meu sogro, Joanico Resende, Chico Moço, Divino Lopes, Mundinho Alves, Tonico Borges e muitos outros a serem acrescentados pelos leitores. Vejamos o que eles têm em comum.
Meu pai foi um comerciante de muito sucesso e continuou sendo uma pessoa simples, atenciosa e amável, dando atenção a todos que o procuravam, como se tivesse todo o tempo do mundo, e se interessando pelo que a outra pessoa lhe dizia. Era absolutamente discreto, ouvia e só dava uma opinião se isso fosse solicitado. Esta é uma grande e escassa qualidade de algum tempo para cá. Foi o que levou o saudoso teólogo, padre João Batista Libânio, reservar um dia da semana para ouvir seus paroquianos de Vespasiano, apenas ouvi-los, sem qualquer julgamento. E denominou esta ação de escutatória! O armazém do Clarimundo era um lugar de escutatória...
Ao longo da vida todos temos dissabores, experiências negativas e contato com mesquinharias, levamos facadas nas costas, sofremos injustiças e meu pai não foi uma exceção. O diferente é que não perdeu a alegria de viver e de conviver, nem buscou vingança ou ficou difamando quem agiu mal contra ele. Lembrei-me agora de Lucas 2,19 e 2,51, passagens segundo as quais Maria, mãe de Jesus, guardava o que ia vendo e vivenciando no coração e meditava sobre elas. Meu testemunho é que foi isso que meu pai vivenciou e permitiu a ele chegar ao fim da vida com alegria, achando sempre que todo mundo morria “muito novo”, mesmo que já tivesse 60, 70 anos ou mais.
E por falar em morte, nenhum conterrâneo deixou de ter seu acompanhamento quando seu cortejo passava em frente ao armazém e seguia pela avenida Rio Branco em direção à última morada. Todos, conhecidos ou não, de qualquer classe social, tiveram a solidariedade de sua presença no momento final de sua caminhada por aqui. Na noite em que ele se deitou pela última vez estava com tudo arrumado para ir, na manhã seguinte, ao Rio Paranaíba despedir-se do Juca da Farmácia. Foi compassivo e misericordioso.
“Lovable” é um termo da língua inglesa de que eu gosto muito e que não tem uma tradução simples em Português, mas que se aplica a muitas pessoas que a gente conhece. É aquela turma de quem a gente gosta de graça, por nada, que naturalmente chama a amizade dos outros e eu posso afirmar que meu pai foi desse tipo, pois a quase totalidade das pessoas fala bem dele para nós, o que nos enche de alegria e ternura.
Quando eu retornava a São Gotardo, tinha além da alegria de rever amigos, a felicidade de ouvir os causos novos que papai, seo Jaime e João Bosco guardavam para me contar. Repasso três para vocês.
Seo Jaime estava sentado no banco do jardim com amigos, quando chegou um candidato a vereador, mostrando uma lista com 180 nomes, pediu a ele que votasse no amigo dele, candidato, o Tonico das Botas, pois ele já estava eleito e se elegeria só com os votos da Matutina. Com a calma habitual, meu sogro falou que ia votar nele, mas mudaria de voto a seu pedido. Resultado: o Tonico foi eleito e o dono da lista teve 13 votos. Detalhe: o povo da Matutina não votava mais em São Gotardo!
Noutra ocasião, chegou ao armazém um freguês bonitão que tinha levado um tiro na coxa esquerda, reclamando da injustiça: - “Veja, sô Clarimundo, eu estava lá na estrada pruma fazendinha, no carro, aconselhando a jovem esposa daquele infeliz a voltar para ele, quando ele sem dizer nada, atirou em mim, pela janela do meu fusquinha.” Papai estava pensando no que dizer, quando um dos funcionários falou:
“- Que desperdício de bala, né¿ Ele podia ter te dado uma chifrada...” E foi uma gargalhada só e a vida seguia em frente, engordando o nosso folclore com histórias que iam sendo repassadas, aumentadas e recriadas.
Há inúmeros casos de velórios, mas a melhor ouvi do Tião Franco. Eles estavam num velório, que na época era na casa do falecido e entrava madrugada a dentro. Passada a meia noite foram raleando as bebidas e os tira-gostos e os amigos presentes começaram a recolher dinheiro para alguém ir buscar o combustível para a turma da madrugada, até que a viúva quis contribuir e o XYZ, que estava coletando, recusou: “A senhora não, a senhora já entrou com o defunto!”
Lembro-me, ainda, da bondade do Téo (Antônio Teóphilo) e do Vicente Teixeira, da alegria do Lipran e do Tião Franco, da espirituosidade do Hugo do João Lopes, do Nélson Bico Doce, do Julinho do Zé do Lino e do Tarcísio Melo, da espiritualidade do Luzardo. Quem cita comete sempre o pecado da omissão e eu conto com a boa vontade dos leitores, escrevam indicando outros conterrâneos e assumo o compromisso de mencioná-los em publicação futura, numa das quais pretendo falar dos apelidos e dos nomes inusitados do Arraial da Confusão.
Se são perfumadas as mãos que espalham flores e abençoadas os mensageiros da paz, todas estas pessoas mencionadas neste texto merecem as bençãos dos céus e o nosso agradecimento. Acho que consegui justificar os adjetivos do título destes textos.
Luiz Sérgio Soares – 20.02.2024 – com a colaboração do Marcinho em todos os artigos.
Cachoeira do Salto – Foto de Thiago A Timao
O trabalho para meu pai, Clarimundo Soares, sempre foi prazeroso e seu armazém era um lugar alegre. Ele empregava, a pedido da mãe viúva ou dos pais, jovens a quem transmitia seu exemplo e a quem ajudava quando chegava a hora de iniciar uma nova etapa nas suas vidas. A cultura da época admitia o trabalho dos jovens e isso até hoje é defendido pelos mais velhos, que são contra as leis trabalhistas que proíbem o trabalho infantil e restringem o trabalho dos adolescentes.
Zé Moreira falou um dia para um de nossos irmãos: “Aquilo lá não era um emprego, era uma escola.” E o Mauro disse com um certo exagero de gratidão: “Tudo o que eu tenho, devo ao sr. Clarimundo.” Essas e outras amizades foram um grande legado para nós, seus filhos.
Eles sabiam, por exemplo, na época da venda, que ele atendia os fazendeiros de madrugada para abastecer seus veículos na bomba que ficava no meio da avenida, nas madrugadas extremamente frias da nossa terra naquela época. O freguês buzinava e ele saía da cama para atender o cliente.
Marcante também nessa época o pátio para os cavalos dos fazendeiros que vinham em grande número para a missa das dez, vendiam seus produtos e compravam o que não produziam nas fazendas, se encontravam com os conhecidos e agitavam o local com a prosa animada.
O Antônio da Luca era um caso especial e falarei dele daqui a pouco, mas foi um dos que o meu pai dava um emprego e ajudava sem humilhar: arrumava pequenas tarefas para o Zé Mudo, tais como descarregar um caminhão de lenha, o Paieta era bom entregador de compras mesmo com uma mão só e o Mudo recebia e devolvia as latas com os rolos de filme na rodoviária e nunca errou ao longo dos anos.
O Antônio da Luca carregava uma sacola de papel com uns papéis que “provavam” ser ele herdeiro das terras da metade oriental do Rio São Francisco e afirmava com convicção que era também dono de tudo que o papai tinha e que só não tomava por causa da estima que tinha por minha mãe e por seus filhos. De tempo em tempo, quando o movimento estava fraco ou o empregado estava mais agitado, papai oferecia a ele 5 mil réis para por fogo nos papeis e o Antônio da Luca pulava para a calçada e o ameaçava, xingava muito e ia falar com minha mãe, que o acalmava.
Depois que o Tõe Quito terminou o Tiro de Guerra em Araxá deu para o xará sua farda e batebute, que ele orgulhosamente usava nos feriados nacionais e usou quando impediu a TFP de entrar na cidade com seus estandartes vermelhos, porque disseram a ele que eram os comunistas chegando.
O Hugo do João Lopes o acompanhava e quando ele entrava no bar da rodoviária o chamava pelo telefone do Bar do Totoe Bernardo, dizendo ser o General Geisel e ele ao atender ficava em posição de sentido e dizia: “Pois não, senhor Presidente..., entendido, transmitirei ao juiz ou ao prefeito suas determinações” numa longa conversa fantasiosa e complicada, quando o general presidente determinava, por exemplo, que localizasse o Epicentro da Silva, perigoso espião...
Antônio de Oliveira, o Antônio da Luca, é hoje nome de importante rua no Cargueiro-Bairro N. Sra de Fátima, e deixou duas casas de herança para seus filhos. Jogava no gol e era quem tirava as traves colocadas no campo de aviação, local dos jogos na época, antes da construção do estádio Olavo Bilac de Resende, e as guardava em casa. Num jogo comemorativo, com antigos jogadores, seu beque marcou propositadamente um gol contra e ele saiu atrás dele para bater; depois, pegou um pênalti e o juiz repetiu a cobrança e ele não conseguiu defender novamente, tendo que suportar as gozações dos que estavam atrás do gol.
Eu li nalgum lugar que os “loucos” das cidades pequenas são tão queridos porque eles permitem aos adultos brincar. Pura verdade.
Presto finalmente a homenagem de nossa família ao Antônio e ao Adélio Dias que estiveram com meu pai até o último dia em que ele trabalhou e que eram mais que amigos, tanto que, quando o bom e dedicado Antônio faleceu, seu velório foi anunciado como sendo da grande figura humana conhecida como “Antônio do Clarimundo”.
Tive imensa dificuldade em escrever este texto, feito a pedido do editor do Jornal Daqui, em nossa primeira conversa quando me ofereci para ser colaborador deste periódico. Nós mineiros temos muita resistência a falar de nós mesmo e dos nossos, havendo até o ditado antigo: “Elogio em boca própria é vitupério”, que meu avô Francisco Caetano Quito usava muito. (Vitupério: insulto, injúria, ultraje).
Clarimundo Alves Soares, meu saudoso pai, nasceu em Dores do Indaiá e veio criança para São Gotardo, com seu pai, Lino Francisco Soares, Oficial (construtor) de quem deve ter herdado o gosto por construir imóveis. Sua mãe foi uma bela mulher, de quem a Vera herdou os traços e o bom temperamento. Órfão desde muito cedo, teve o carinho da irmã Altiva, a quem chamava Fia e era sua primeira visita quando vinha à capital. Amoroso, sempre teve a estima dos irmãos Álvaro, Raimundo e Zezé do Lino, e das irmãs Altiva, Maria, Alice e Tininha, que foi freira com traços de santidade.
Amou nossa cidade como ninguém. Aqui aplicou tudo o que ganhou numa dura vida de comerciante e empreendedor. Não pôde seguir os estudos, mas a falta de escolaridade não o impediu de acompanhar o mundo. Lia diariamente o “Estado de Minas” e acompanhava o noticiário, primeiro pelo Repórter Esso, no rádio, e depois pela televisão. Admirava e respeitava quem tinha um diploma, mas podia discutir a maioria dos assuntos com qualquer um e gostava sobretudo de quem tinha uma prosa boa.
Menino ainda, nas madrugadas frias daqui, saía com o tabuleiro de pães na cabeça pela cidade para entrega aos fregueses da padaria do seu pai. Desse tempo falava pouco e eu pouco sei, tendo alguma notícia dele pelo que minha mãe contava, pois ele pouco falava de si mesmo.
Teve uma venda, que depois se tornou mercearia onde hoje é o Supermercado Mineirão, do Bertinho. Matava porco, vendia quitandas e doces, bem como produtos que os fazendeiros traziam da roça. Vendia fiado e conhecia os costumes dos fregueses. Uma vez, eu o presenciei perguntar do seu escritório: “Quem foi que anotou Toddy na caderneta do Frederico¿ Ele não compra isso.”
Gostava de trabalhar e passava isso para o ambiente de trabalho, onde acolhia jovens e os preparava para a vida, ajudando-os financeiramente quando iniciavam uma nova empresa. Trocava ideias com os outros comerciantes do mesmo ramo e sempre manteve boas relações com eles.
Quando eu fui para Brasília, hospedei-me num hotel de um conterrâneo, homem simpático e divertido, que chamou o gerente e disse: “Atenda este moço em tudo que precisar, quando minha mãe ficou viúva, carregada de filhos, opai dele não cortou o fornecimento do armazém, sem qualquer perspectiva de recebimento em curto ou médio prazo”. Ele nunca tinha nos falado disso e ao longo da vida fomos ouvindo relatos similares, culminando com uma mulher simples que, visitando minha mãe, falou: “Dona Adélia, desde que o seu Clarimundo morreu, nunca mais comi bacalhau.” Na Semana Santa ele distribuía mantimentos para os pobres e incluía um pedaço do mesmo bacalhau (bom) que vendia para os demais clientes.
Para terminar, desfaço uma confusão generalizada pela qual as pessoas consideram inteligente quem é apenas bom nas coisas de escola ou leu muito, isso é erudição e não torna ninguém melhor ou pior. Outra coisa é a sabedoria, que é a capacidade de enfrentar bem os problemas que a vida inevitavelmente nos traz e de tornar mais agradável a caminhada de quem teve a felicidade de conviver com ele, Clarimundo Alves Soares, um homem sábio e bom.
Vi nas redes sociais uma foto do João Pedro jogando no Betim e isso me trouxe excelentes lembranças, pelo que agradeço à Milene pela postagem. Acontece que ele é neto do Pedrinho do Zé do Lino, uma das pessoas mais amáveis que conheci, e da Fátima do Totoe Bernardo, bela rainha do União, nosso time de futebol de salão (eu, Wado do Nadinho, Julinho ou Luiz Fernando, Tarcísio e Luiz Roberto), portanto, sobrinho do Ladinho e o Zé de Castro era seu tio-avô.
E eu voltei no tempo, para um tempo em que toda a cidade ia para o campo do Sparta, aos domingos, em jogos memoráveis, num horário incrível, às 15h, com o sol a pino! Num uniforme branco, com detalhes em verde, um escudo triangular, brilhavam Carlinhos, no gol, Zé Pessoa, com um incrível senso de colocação e antecipações mortais, Zé de Castro e Dezinho, no meio de campo, os pontas Queiroz e Botões, o nosso maior centroavante de todos os tempos, Zé do Baiano, casado com a Alda, irmã da Fátima. O Ladinho destacava-se pelo porte físico e pela extraordinária agilidade.
A maior parte dos jogadores eram amadores e alguns profissionais, de fora, ganhavam moradia e pequenos salários. Para se ter uma ideia, meu tio Zé do Lino premiava o melhor do jogo com um aparelho de barbear.
Eu cresci com a lenda de que o Zé do Baiano teria sido convidado para ir para o Vasco da Gama e que a família não deixou, porque jogador de futebol e artista não tinham boa fama na época. Conversando sobre isso, o Luiz da Aída corrigiu a história: Zé do Baiano, Zé de Castro e Ladinho reforçaram o Dorense num jogo contra o Vasco, e o destaque foi o Ladinho, que teria sido convidado para ir para o time carioca, do qual até reserva já tinha sido convocado para a seleção, e que o pai não deixou, pois jogador profissional e artista não eram bem considerados na época. Fico com a minha versão da história e acrescento a ela nosso grande zagueiro.
Volto ao João Pedro, para lhe dizer algumas coisas, palpiteiro que sou. Primeiro, acabei de ler a biografia do Alex e acho que lhe ajudaria a ter uma ideia do meio agreste que é o futebol. Depois para lembrar que a carreira esportiva é curta e estonteante. Dois conselhos mais deste enxerido: você não precisa competir com ninguém a não ser com você mesmo, pois cada um de nós só tem a obrigação de buscar a própria excelência, que depende de muitas circunstâncias e às vezes do acaso; sobretudo, encontre em tudo a alegria e escolha sempre ser feliz.
Receba meu carinhoso abraço, na esperança de vê-lo no Mineirão, se possível no Cruzeiro, e a caminho da seleção.