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    Segunda, 03 Agosto 2026 21:15

    É somente um jogo de futebol?

    Enquanto escrevo assisto ao jogo da seleção brasileira contra a seleção japonesa em plena copa do mundo e um jogo como esse levanta algumas questões que para muitos deverão soar estranhas diante de algumas arraigadas em nossas mentes.

    Um jogo que está acontecendo em plena segunda-feira de uma semana normal, no meio da tarde em um horário que, se não fosse a peculiaridade da copa do mundo, estaríamos, todos nós, trabalhando.

    E aqui começam as questões a que me refiro.

    Para muitos é um verdadeiro absurdo a atividade econômica parar para que nós, brasileiros, possamos assistir aos jogos. Muitos comerciantes, industriais, questionam a necessidade, se é que é realmente uma necessidade, de paralisar tudo por causa de um jogo de futebol.

    Um simples jogo de futebol, gritam! Um bando de homens correndo atrás de uma bola e por quê devo fechar meu comércio, minha indústria, as escolas e todo o resto.

    E é essa racionalidade que está em jogo (sem querer fazer qualquer trocadilho), ou seja, não é possível fechar uma atividade econômica e reduzir o faturamento de vendas por causa de um simples jogo de futebol.

    Um dia, uma tarde, umas duas horas, uma única hora com o estabelecimento fechado implica em perda de vendas, perda de faturamento e perda do santo graal do capitalismo, o deus-lucro.

    Afinal, o lucro impera acima de tudo e de todos.

    Muitos decidem por não fechar seu estabelecimento. Levam televisores para o local de trabalho, exigem que o funcionário vá assistir ao jogo com a condição de que voltem rapidamente. Não se pode perder nenhum cliente. Vendas, vendas acima de tudo.

    E nesse debate muitos se esquecem, ou mesmo se recusam a saber, que não é somente uma partida de futebol. Faz parte da nossa cultura, do nosso saber viver e colocar a racionalidade do lucro acima da cultura de um povo gera conflitos, insatisfações e mesmo, em caso extremo, revoltas.

    Um jogo como esse, mais do que a disputa esportiva, impera um conjunto de relações pessoais e sociais. Nós nos reunimos em festas, churrascos, em torno de mesas de bar, bebendo e comemorando a vitória ou afogando as mágoas caso haja uma derrota.

    É essa racionalidade que entranha em nossas mentes e acabamos por relegar a segundo plano a cultura de um povo em prol dos interesses econômicos.

    Vimos essa mesma racionalidade em um período muito mais traumático do que uma possível derrota no jogo da seleção brasileira.

    Há cinco anos atrás começou no mundo uma grave pandemia, de triste memória, de Covid 19 e todos nós, hoje, sabemos as consequências nefastas dessa lógica dos interesses econômicos acima dos interesses de uma sociedade, nesse caso, uma questão de saúde pública.

    700 mil pessoas morreram por causa da maneira vil como a pandemia foi considerada aqui no Brasil. A lógica do interesse econômico acima de tudo impedindo que medidas fundamentais para o controle da doença fossem implementadas.

    É claro que não estou comparando uma situação a outra, mas, guardadas as devidas proporções, a discussão é a mesma.

    É futebol sim, mas é também a cultura de um povo.

    E não podemos perder a noção de que, a economia é importante sim, mas para que serve tudo isso se o bem-estar da sociedade for relegado a um plano inferior?

    Em tempo. Estamos no intervalo do jogo e a seleção brasileira está sendo derrotada pela seleção japonesa. Espero que viremos o jogo!

     

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