Em alguns momentos, creio, perdemos um pouco a noção das coisas.
É fato que economia e política andam sempre de mãos dadas. Não se pode falar de política sem pensar na questão econômica e também não podemos pensar em fazer política econômica sem pensar no jogo político.
Essa deveria ser uma questão resolvida na cabeça de todos nós, mas, infelizmente, não é o que acontece.
Seria a mesma coisa que discutir táticas a serem adotadas em um jogo de futebol e ignorar o papel da bola nesse jogo.
E sempre que nos aproximamos de um período eleitoral essa discussão volta à baila. Afinal, perguntam todos, que tipo de políticos queremos?
Se pensarmos somente no poder executivo, presidente, governadores e prefeitos, uma acirrada discussão tem início e a velha pergunta volta para nos assombrar, como que um espírito que vaga solitário.
O governador deve ser um bom gestor, bradam alguns. Assim como o prefeito, complementam outros. A resposta para isso é, ao mesmo tempo, uma resposta simples e ao mesmo tempo, não é.
Tem que ser um bom gestor? Não necessariamente, mas tem que ter alguma ideia de gestão também. Mesmo que se compare, de forma errônea devo acrescentar, a gestão de um Estado ou de uma cidade à gestão de uma empresa ou das nossas casas, a ideia é simples. O chefe do poder executivo, mesmo tendo noções de gestor, tem que saber delegar e delegar significa escolher para ter ao seu lado, pessoas que de fato sejam gestores.
Traduzindo em miúdos, o prefeito deve ser cercado por secretários eficientes assim como os governadores. Mas... (em qualquer tragicomédia, tem sempre um mas...)
Como escolher sua equipe de gestão? Essa escolha é sim, um ato político e deve envolver todo o espectro político que permitiu a eleição do governador ou do prefeito. Aí a política existe e faz muita falta se for ignorada.
Qual rua devo asfaltar? Qual praça devo revitalizar? Em que local devo inaugurar um novo posto de saúde? Onde se faz mais necessário um reforço policial? Porque algumas regiões de uma cidade têm melhor infraestrutura urbana do que outra?
São decisões técnicas? São. Mas antes de tudo são decisões políticas.
E como levar a cabo estas decisões que são políticas? Discutindo em praça pública? Debates em redes sociais? Não é assim tão fácil.
Em primeiro lugar, vivemos em uma democracia representativa. Mesmo que essas escolhas sejam debatidas na base da sociedade (e é muito importante que sejam) a palavra final será dos representantes que foram escolhidos através do voto popular e em um mundo ideal essa palavra final deveria ser aquela que representa os interesses da população que, é fato, escolheu estes representantes.
Isso funciona sempre? Infelizmente não. E é fácil entender isso. Basta que tomemos como exemplo a atual Câmara dos Deputados e o Senado Federal.
Nunca se viu, na história republicana brasileira, um Congresso Nacional tão afastado e tão dissociado dos interesses da população brasileira. Anistia, PEC da blindagem, discussões que somente refletem interesses individuais que se concentram nas famigeradas bancadas. Da bala, do boi, da Bíblia, do jogo, disso e daquilo, todas buscando trazer sua sardinha para as melhores brasas.
Estamos vivendo um momento surreal na política brasileira. Vivemos um tempo de Murici, onde cada um cuida de si e a percepção de sociedade flui para o ralo.
E a economia? Essa vai muito bem, obrigado.



