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    Quinta, 17 Outubro 2019 20:15

    Entrevista Breno Melo - 50 anos de advocacia

    Escrito por José Eugênio Rocha

    Das primeiras lições de infância, se recorda bem, ficaram mais que lembranças. Nascido em fazenda, lá pelas bandas da Vila Funchal, foi logo aprendendo a montar em burro bravo. Percorreu cada palmo daquela imensidão. Morro e mais morro, rio e mais rio. É nas entrelinhas que a história se desenlaça. Por isso, é preciso sublinhar aquelas primeiras aventuras num sertão distante pois, com elas, vieram lições que o acompanharam pela vida afora.

    Filho primogênito, Breno Mello ingressou na vida estudantil pela escola municipal do distrito de Vila Funchal, onde aprendeu a ler e escrever. Ao completar 10 anos de idade se mudou para São Gotardo, mas por breve estadia. Aos 13 anos teve a rara oportunidade de estudar em um dos melhores colégios da região, o Dom Bosco, na cidade de Araxá, lá permanecendo até a conclusão do ensino médio. Era o início da década de 1960. Seu sonho: cursar a universidade. Em 1962 prestou vestibular na PUC-MINAS, concluindo o curso de Direito no ano de 1967. Ao longo destes cinco anos na Universidade experimentou um sem número de desafios. No ano de 1964, quando a convulsão do golpe militar investia contra direitos e liberdades individuais, Breno Mello por muito pouco não foi preso pela polícia, chegando inclusive a ser interrogado. Naquele ano Breno havia sido eleito presidente do Diretório Acadêmico da Puc, envolvendo-se, sem saber, com o movimento estudantil, uma das forças de resistência nos primeiros anos de chumbo. Suspeito de pregar ideias comunistas - o que não era verdade - teve de dar explicações aos agentes militares. Intercedeu em seu favor o reitor da universidade, Dom Serafim Fernandes. " Parece que era o delegado. Quando eu entrei na sala dele , ele sabia mais da minha vida do que eu. de tanto investigar. Eu falei assim: doutor como eu posso ser comunista? Meus pai é um fazendeiro humilde, analfabeto não tem nada de comunismo..."Ele relembra.

    Foi também nesta fase universitária que o jovem Breno defrontou pela primeira vez as limitações impostas por uma certa dificuldade de dicção. Este é um assunto que já lhe rendeu boas risadas. Breno deu a volta por cima e provou que sua furtiva gagueira nunca foi empecilho para exercer a profissão, e de tabela, alçar o posto de um dos maiores e mais respeitados advogados de São Gotardo. Veja a entrevista:

     

    O senhor enfrentou preconceitos ou desconfianças por causa da dicção?

    Várias vezes. Quando fiz o pré-vestibular, tinha aquela prova oral de português. Aí falei com o professor que tivesse calma comigo, porque eu sou gago e eu fico nervoso. Daí ele me disse que era apenas uma desculpa, que não era gago nada. Lembro disso como se fosse hoje: quando eu comecei a ler eu dei uma gaguejada. Ele me deu zero na prova.

    Depois de formado, quando retornei pra São Gotardo, um sujeito me disse logo depois que cheguei: Como é que você vai ser advogado, se você não sabe nem conversar? Por incrível que pareça eu defendi o cara que matou esse sujeito. Aquilo me feriu profundamente pelo fato de eu ser gago. Curiosamente eu senti que a minha profissão era aquela, e principalmente na área criminal. Sabe por quê? É na área criminal onde você vê as maiores injustiças. Eu tinha um professor que já dizia que só ia pra cadeia quem era pobre e/ou negro. Infelizmente é verdade.

    E naquele tempo, era difícil exercer a profissão em uma cidade pequena? Como foi o inicio de sua atuação ?

    Eu vou falar pra você, era um problema sério. Quando eu vim pra São Gotardo aqui só tinha três advogados, o Fausto Mesquita, o Osvaldo Pessoa e o Jaime Henrique. Eu tenho um grave problema: eu troco até hoje o G com o Q. Quando a palavra se escreve com G eu ponho Q, quando é com Q eu ponho G. Eu fiz uma petição certa vez, e onde era 'cheque' eu botei 'chegue', e isso foi motivo de crítica no meio jurídico: ah! ele não sabe nem escrever, diziam.

    Isso não o desanimou?

    Não. De maneira alguma. Eu superei. E acabei me tornando o advogado mais requisitado da cidade. Teve um tempo aqui em São Gotardo que, se morresse 40 pessoas, 38 inventários era meu escritório que fazia. O povo me procurava. Só na Justiça gratuita foram mais de 100 júris. Eu nunca recusei, porque quando você forma você faz um juramento. Toda vida eu procurei cumprir o meu juramento.

    A Justiça é elitista?

    Quem tem dinheiro contrata os melhores advogados. O nome pesa, e muito. Por exemplo, se tem um advogado que é sobrinho de desembargador, na minha opinião, tudo isso influencia. Entre o meu conhecimento e o dele, o meu pode até ser melhor, mais o dele prevalece.

    A Lei reflete valores e costumes. Muita coisa mudou nos últimos 50 anos?

    Mudou e muda todos os dias. No Brasil, a lei é feita do fato, do momento. Por exemplo a lei do crime hediondo surgiu por que? por causa da Gloria Perez( autora de novelas. sua filha foi assassinada pelo marido, o que causou enorme comoção na época). Quer dizer, é um fato do momento. Você não tem mais aquela segurança que tinha antigamente. Segundo: a violência corre solta. Você está vendo ai o Feminicídio. O estado de Minas Gerias foi o estado que mais teve assassinato de mulheres. Então você tem que comprar um código penal todo mês, porque muda a lei.

    O advogado pode escolher a quem defender?

    Pela constituição federal ninguém pode ser condenado sem ter direito à defesa. Pode ser o pior crime do mundo, que ele tem o direito a um advogado. Eu adoto o seguinte princípio: se me procuram eu falo, olha, eu vou pegar sua causa, e explico pra ele as chances possível. Então, o crime por exemplo. Eu já defendi um crime que era indefensável, e eu explicava pra ele, olha eu vou fazer o possível pra atenuar a sua pena, por que absolvição é impossível. O advogado tem de ser honesto. Eu explico todas as consequências que pode ocorrer.

    O senhor acredita que ocorre muitos casos em que uma pessoa é condenada injustamente?

    Essa é uma coisa difícil de responder. Quando eu estou defendendo uma pessoa, eu lanço minha tese de defesa, agora, quem decide é o júri. Não é o advogado, não é o promotor nem o juiz, são os sete jurados. Eles são juízes do fato e de fato, e tanto é verdade que a decisão deles só pode ser modificada se ela for manifestamente contraria a prova dos autos. Então você não sabe o que se passa na cabeça dos jurados.

    Comemorar 50 anos de profissão é um privilégio

    Eu sempre pautei a minha vida dentro dos princípios éticos, morais e cristãos. Eu agradeço do fundo do meu coração ao meu pai(Antônio de Mello), que só sabia assinar o nome mas que na matemática era fora de série. Minha mãe(D. Auta ), que era professora formada. Eles me incentivaram. Meu pai me sustentou durante todo meu curso, e a única coisa que eu tinha que fazer era estudar e mais nada, nunca exigiu que eu trabalhasse para eu manter meus estudos. Me casei, graças a Deus, com a Eneida, que também se formou em advocacia. Agradeço aos meus filhos, a Cristina, o Neto, a Rafaela, que não sei se pelo fato de eu ser advogado seguiram o mesmo caminho, e o Ricardo. Sou saogotardense, amo essa terra e agradeço ao povo de São Gotardo e a todas essas pessoas que confiaram em mim.

    Aos jovens advogados de hoje, que estão iniciando, que eles sejam advogados honestos, cultos, amigos, sinceros e que faça da justiça a sua bandeira, pois sem advogado não existe justiça.

     

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