Indicadores apontam que centenas de famílias de São Gotardo convivem diariamente com os desafios de lidar com um adulto ou criança portadora do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Autismo, um dos temas mais urgentes da saúde pública contemporânea, se caracteriza por desafios na comunicação, interação social e padrões de comportamento repetitivos.
Compreender o transtorno é o primeiro passo. A partir daí, o suporte terapêutico deve ser visto como um direito fundamental. A conscientização coletiva permite que famílias identifiquem sinais precoces e busquem intervenções que garantam autonomia e qualidade de vida aos indivíduos portadores do espectro autista.
Estima-se que mais de 200 pessoas possuam diagnóstico fechado no município, embora a subnotificação seja uma barreira persistente. Diante da carência de suporte especializado na rede pública, a Associação Mundo Azul de Apoio e Proteção ao Autista de São Gotardo (AMA) tornou-se o principal pilar de assistência no município.
Em entrevista exclusiva, a presidente da entidade, Maria Rita Melo, detalha a luta para manter os atendimentos e a necessidade vital de uma parceria mais robusta entre o poder público e a entidade para assegurar a continuidade dos tratamentos.
A entrevista revela que o diagnóstico precoce, muitas vezes possível ainda no primeiro ano de vida, é o divisor de águas para o desenvolvimento de habilidades funcionais. Maria Rita compartilha a experiência vivida pelas famílias e a importância de encarar o "filho real" em vez do idealizado, focando em suas potencialidades. Além disso, o texto aborda a necessidade de suporte financeiro estável, uma vez que a manutenção de terapias especializadas exige recursos constantes que nem sempre chegam com a agilidade necessária.
A convivência entre pais e a troca de experiências práticas também são destacadas como ferramentas poderosas para mitigar crises sensoriais e melhorar o cotidiano doméstico.
A partir desses eixos, a reportagem a seguir explora a fundo a incidência do autismo no município, as iniciativas de atendimento da AMA e os obstáculos para que a saúde pública assuma seu papel de parceira direta nesse desafio. Veja os principais tópicos abordados na entrevista:
São Gotardo busca ampliar rede de apoio e diagnóstico para autistas
A incidência do autismo em São Gotardo tem mobilizado famílias e instituições em busca de maior visibilidade e suporte terapêutico. Com um universo estimado em mais de 200 pessoas laudadas, o município enfrenta o desafio de estruturar uma rede de atendimento capaz de suprir a demanda crescente, hoje concentrada majoritariamente no trabalho da Associação Mundo Azul de Apoio e Proteção ao Autista de São Gotardo (AMA).
O papel da AMA e a experiência pessoal
A presidente da AMA, Maria Rita, iniciou sua trajetória na causa após o diagnóstico da filha, hoje com oito anos. Segundo a dirigente, o impacto da notícia gera um "luto pelo filho idealizado", mas a aceitação rápida é crucial para o sucesso do tratamento. A associação surgiu da união de pais que enfrentavam a solidão do diagnóstico e hoje oferece terapias essenciais, como fonoaudiologia, psicologia e terapia ocupacional. Atualmente, a entidade sobrevive por meio de recursos do Fundo da Infância e da Adolescência (FIA), subvenções da Secretaria Municipal de Assistência Social e emendas impositivas da Câmara Municipal.
Subnotificação e desafios do diagnóstico
Embora os registros oficiais apontem cerca de 200 casos, Maria Rita acredita que o número real seja significativamente superior. A rede municipal de educação contabiliza 140 laudos, enquanto a AMA possui mais de 100. A subnotificação é atribuída à dificuldade de acesso a neuropediatras na rede pública, o que impede o fechamento de diagnósticos, especialmente em adolescentes e adultos. A presidente ressalta que o laudo é fundamental não apenas para o tratamento, mas para garantir o acesso a direitos assegurados por lei.
Sinais de alerta e intervenção precoce
A especialista enfatiza que o autismo pode ser identificado ainda no primeiro ano de vida. Sinais como transtornos do sono, ausência de contato visual durante a amamentação, falta de atenção compartilhada e comportamentos repetitivos (como bater a cabeça) são indicadores importantes. "Quanto mais cedo começar a terapia, melhor o resultado. O objetivo é tornar a criança o mais funcional e independente possível na vida adulta", afirma Maria Rita. Ela destaca que o tratamento trabalha habilidades básicas, como obedecer a comandos simples, que servirão de base para aprendizados complexos no futuro.
Convivência e suporte familiar
A troca de experiências entre famílias é apontada como um fator de transformação na qualidade de vida dos autistas. Maria Rita relata que muitas soluções para crises sensoriais — comuns devido à hipersensibilidade a sons ou toques — são aprendidas em grupos de apoio. A compreensão de que o autismo é um espectro com diferentes níveis de suporte (1, 2 e 3) ajuda a sociedade a lidar com a literalidade e a necessidade de rotina rígida dos pacientes, reduzindo episódios de desregulação.
Saúde pública e sustentabilidade financeira
Um dos pontos críticos abordados é a relação entre a AMA e o poder público municipal. Atualmente, não há atendimento especializado para autismo via Sistema Único de Saúde (SUS) em São Gotardo, o que sobrecarrega a associação. Maria Rita aponta uma defasagem de profissionais no mercado e dificuldades financeiras, já que a estrutura da AMA custa cerca de R$ 40 mil mensais. A presidente reivindica que a Secretaria Municipal de Saúde estabeleça uma subvenção direta e contínua, evitando interrupções nas terapias durante os primeiros meses do ano, quando os recursos de emendas ainda não foram liberados.
Em sessão ordinária do Poder legislativo no início deste mês, a presidente da AMA, Maria Rita Melo, ocupou a Tribuna para propor à presidência da Câmara e aos parlamentares a realização de uma Audiência Pública para discutir sobre a incidência do Autismo em São Gotardo e seus desafios. A proposta recebeu amplo apoio da Casa legislativa.



