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    Sexta, 18 Outubro 2019 16:17

    Aprender é bom, estudar nem tanto

    Escrito por Edson Carlos

    Como trabalho há anos com jovens, posso dizer de experiência que os pais têm mais ou menos as mesmas preocupações quando o assunto é português, leitura, interpretação de texto, redação.

    Sempre ouço mais ou menos o seguinte: meu filho está com dificuldade para interpretar. Não quer nada com leitura. Quando é obrigado a ler, exigência da escola, a mãe (ou o pai) fala: eu leio um pedaço, ele lê outro, se não for assim não vai. Não posso largar ele sozinho, não sai nada. Não pegou recuperação, mas ficou no limite. O pai acha que a mãe devia deixar o menino de lado, mesmo que tire zero, para aprender autonomia. Às vezes o problema é a letra. Ninguém lê, nem o dono da escrita. Ortografia é um desastre. Escreve oge, hontem, axo, abto, parece língua de internet. Por fim, resume dizendo que o filho detesta estudar, tem preguiça. Qual a minha opinião?

    Eu costumava dar voltas para dizer o que hoje falo direto. O menino tem razão. Espantam-se. Como? Coloque-se no lugar dele. Há mil coisas melhores pra fazer: jogar bola, nadar, andar de bicicleta, correr, tomar sorvete, brincar, ver filme, para não falar nos mil joguinhos do celular. Estudar ocupa uma posição inferior nesse lista de possibilidades. Principalmente se tomarmos a palavra no sentido de ir à escola, inscrever-se em um curso, copiar e decorar. Porque, no dicionário, a palavra tem esses sentidos. Ora, existem outras coisas chatas, mas copiar e decorar é bem chato. E o que se faz (claro, tire as exceções) nas escolas? Está faltando uma pesquisa (talvez já exista) para botar no papel quantas horas são desperdiçadas com copiação e decoreba. Para não falar nos efeitos colaterais que isso provoca: desânimo, rebeldia, aversão pelo estudo, ódio pelo português, pela leitura, etc.

    Mas a palavra “estudar” tem outros sentidos: exercitar a inteligência e o raciocínio para aprender, refletir, analisar com atenção. O alvo é o aprendizado. Estuda-se para aprender alguma coisa, adquirir conhecimentos e habilidades. Isso não é chato. Qualquer pessoa saudável da cabeça gosta de aprender. Se gosta, não há necessidade de impor. Ela vai procurar, por iniciativa própria ou influência (e não por imposição).

    Quando isso acontece, tudo muda. Parece mágica. O menino vai correr atrás, deixar de fazer umas coisas (joguinhos, por exemplo) para fazer outras, pegar o livro, olhar no dicionário a palavra nova. Mais ou menos isso que pessoas com juízo esperam. E ele vai crescer feliz, aprender a ganhar dinheiro, e gastar bem, pagar as contas, respeitar os outros, coisas que os pais em geral sonham para os filhos.

    Mas como essa mágica acontece? Na minha opinião, fundada na experiência de trinta anos, é através da linguagem. Há várias: matemática, placas de trânsito, Braille, código Morse, Libra. Mas falo de línguas como francês, alemão, inglês. No nosso caso: português. Ou seja: a mágica acontece quando a pessoa fica boa na língua em que nasceu. Aprende a ouvir e falar, ler e escrever com competência. (Quanto a “ficar bom em Português”, é polêmico. Merece artigo à parte. Mas adianto que não é exatamente conjugar verbos ou saber as funções do “que”, menos ainda regras de concordância e acentuação.)

    Quando se é bom em Português, as coisas começam a clarear, a ficar mais fáceis. Para todos. Para os pais, que não vão mais ficar naquele estresse, fazendo tarefas que não são deles, e que terão mais tempo para uma saidinha despreocupada, confiantes de que o filho aprendeu autonomia e agora não precisa de pernas alheias para andar. Está livre para se atirar àquilo que ama. E a sociedade, como um todo, vai ficar mais harmonizada.

    Entende agora por que amo ensinar Português? Como escreveu minha aluna Fernanda: abriu meus olhos. Não estou mais trombando nas coisas.

    Quanto ao emocional, ansiedade, aflição? Nem fale. Matéria para outro artigo.

     

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