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    Quarta, 18 Março 2020 20:57

    Panem et circenses...

    Escrito por Leonardo Camisassa

    Estamos curtindo a ressaca do carnaval.

    Para muitos, é o ponto de partida do ano de 2020. Várias pessoas argumentam que o ano começa somente após o carnaval, quando os brasileiros, cansados das festas do final do ano, férias no mês de janeiro e o carnaval, resolvem tirar a fantasia e, finalmente (ufa!!!!), ir trabalhar.

    Muitos criticam o carnaval. Alguns, por questões religiosas, argumentam que essa festa é pagã e não deveria acontecer pois afasta as pessoas da religião. Muitos aproveitam esse período e procuram retiros religiosos.

    Existem pessoas que não gostam. Preferem o sossego, a calma, onde podem curtir sua casa, um bom livro, músicas boas, longe da bagunça e do barulho que caracterizam o carnaval.

    Existem também aqueles que consideram o carnaval como uma fonte de alienação, algo como panem et circenses, pão e circo, no bom estilo de uma sátira de Juvenal que denunciava que o império romano usava o pão e o circo como forma de manter afastados aqueles mais críticos de sua política. A ideia por traz desse argumento é que, à medida que o governo dá ao povo pão, alimento, e circo, a diversão, a população deixaria de ter uma visão crítica das ações dos governantes.

    Talvez essa lógica de dar o pão fosse funcional no império romano quando o governo dava pão ao povo e dava também a diversão através dos jogos que aconteciam principalmente no Coliseu, em Roma. Dessa forma, mantinha o povo afastado e ainda por cima manipulava as informações.

    Voltemos ao Brasil. Seria o carnaval um exemplo claro de pão e circo? Creio que não. Afinal, em primeiro lugar, não há pão e nessa crise ele vem sumindo rapidamente e diante da alta do câmbio, do dólar, vem também subindo de preço.

    O carnaval seria, então, uma fonte de manipulação das informações e de alienação do povo brasileiro? Só se considerarmos que o carnaval começa no dia primeiro de janeiro e termina no último dia do ano.
    Vivemos em um país onde as informações são manipuladas diuturnamente e, diante da alienação assustadora dos brasileiros, essa manipulação assume patamares também assustadores. Afinal, não tivemos a eleição de um presidente baseada na livre circulação e distribuição de fake news? Não é assustador ver como o brasileiro acreditou e acredita em informações malucas como kit gay nas bibliotecas das escolas, mamadeiras com bicos estranhos e outros absurdos mais?
    Para entender a alienação do brasileiro e a facilidade de manipulação das informações, teríamos que discutir a péssima qualidade da educação no Brasil, o papel perverso da imprensa e a falta de visão crítica do brasileiro em relação a tudo que vem acontecendo no nosso país.
    O carnaval é, sim, uma festa popular e pode e é usado como uma fonte de críticas sociais. Através da música, através do comportamento, são feitas críticas aos nossos problemas sociais, às nossas dificuldades e às nossas limitações.
    Em termos econômicos, essa festa popular é ansiosamente aguardada.

    Em 2018, por exemplo, o carnaval movimentou algo próximo a um bilhão de reais na cidade do Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, também em 2018, somente o gasto direto, nas ruas, dos foliões movimentou, apenas nos dias da festa, um valor próximo de 350 milhões de reais, sem contar a movimentação na rede hoteleira, taxis, bares, restaurantes e vários outros tipos de gastos. Era previsto 5 milhões de pessoas nas ruas da capital para o carnaval desse ano. 5 milhões de consumidores gastando dinheiro! Aquele que defender o fim do carnaval nessas cidades, por exemplo, será imediatamente apedrejado.

    Essa dinâmica econômica provocada pelo carnaval, definida tecnicamente como efeito multiplicador da renda, é a mesma dinâmica provocada pelo Natal, pelo dia das crianças, pela páscoa e vários outros momentos no nosso dia a dia e, no entanto, ao carnaval são dirigidas as maiores críticas.

    Alguns gritam que, enquanto as pessoas brincam nas ruas, os políticos aproveitam para aprovar leis que nitidamente prejudicam a população. Ora, a reforma da previdência foi aprovada no carnaval? A reforma trabalhista foi aprovada no carnaval? A resposta é não, como todos nós sabemos.

    Essas duas reformas (?), somente a título de exemplo, prejudicaram e irão prejudicar muito mais ainda os brasileiros e qual é a reação de boa parte da população senão indiferença e desinformação? Tenho certeza que se formos às ruas muitos brasileiros nem sabem o nome do prefeito das suas cidades e muito menos conseguem enxergar criticamente a nossa realidade social.

    Não é o carnaval o pão e não é o carnaval o circo. Esse papel cabe à televisão que assistimos sentados no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes.

     

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