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    Terça, 28 Janeiro 2020 12:43

    Espero que todos nós tenhamos um bom ano...

    Escrito por José Eugênio Rocha

    Começamos um novo ano.

    Depois das festas, onde todos nós nos congratulamos, desejamos uns aos outros um ano novo repleto de paz, felicidades, saúde, corro o risco de parecer um desmancha-prazeres, alguém que deseja sempre o pior.

    Por que?

    O que nos espera 2020 afinal? É claro que desejo a todos nós muita paz e muita saúde, mas, pensando em termos de sociedade, de economia, pensando em termos macro, não vejo muitos motivos para nos alegrarmos.

    Começamos o ano de 2020 como terminamos 2019, ou seja, assustados com o Festival de Besteira que Assola o País, nosso FEBEAPÁ, que devemos tanto a Stanislaw Ponte Preta, heteronômio de Sérgio Porto.

    Terminamos o ano escutando do presidente da FUNARTE (Fundação Nacional das Artes) que o rock se associa ao satanismo, estimula o aborto e que um famoso grupo de rock dos anos 60 fez parte de um movimento amplo de implantação do socialismo no mundo sob o apoio irrestrito da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviética.

    É um direito que ele tem de não gostar de rock, assim como não gosto de alguns gêneros musicais, mas não associo essa atual sofrência que escutamos a nenhum tipo de raciocínio demente.

    Voltamos aos anos 40 e 50 quando do surgimento do rock que afetou significativamente o padrão cultural do mundo?

    Muitos podem questionar que basta ignorar a fala desse cidadão, mas não é bem assim. Ele preside uma fundação cujo propósito é estimular as artes no Brasil e, portanto, devemos nos preocupar com quais estímulos às artes serão desenvolvidos em um contexto como esse.

    Mais uma pérola para nosso FEBEAPÁ. O atual presidente da Fundação Palmares, fundação essa criada para a preservação da cultura negra, afirmou recentemente que não há racismo real no Brasil e que, "a negrada daqui reclama porque é imbecil". Afirmou também que a escravidão foi benéfica aos descendentes dos escravos porque deu a eles melhores condições de vida do que se ainda vivessem na África além de outras coisas. Ah, para que fique bem entendido o sentido disso tudo, essa pessoa é negra.

    É tão absurdo tudo isso que deixa de ser somente uma besteira e se torna um crime e ainda bem que a justiça impediu a nomeação dessa pessoa.

    O que mais nos espera nesse ano que está começando?

    Em termos econômicos, também não vejo nenhum motivo para ficar animado. Apesar dos últimos números do IBGE, que mostrou um crescimento do PIB no trimestre que terminou em setembro, não é possível afirmar que esse crescimento ínfimo do PIB (0,6%) seja permanente e sim somente conjuntural diante da liberação de recursos do FGTS e da sazonalidade já tradicional do final de ano.

    Esse pequeno crescimento foi puxado pelo setor agrícola e farmacêutico. No entanto, quando olhamos para os números da indústria de transformação, veremos que houve uma queda de 1% na sua atividade. Diante da característica dessa indústria em produzir produtos mais intensivos em tecnologia e diante da sua forte interligação com outros setores, não há como afirmar que esse crescimento se sustentará. E além do mais, o IBGE reconheceu um erro na apuração dos dados referentes às exportações. Errou para cima o que significa que essa variação do PIB poderá ser menor.

    Por sua vez, o mercado de trabalho continua paralisado.

    De acordo com o IBGE, o crescimento do emprego foi, estatisticamente, insignificante. Apenas 0,1%. O número de desempregados atinge o valor de 12 milhões de pessoas. Se somarmos a esse número, a quantidade de pessoas que vivem de "bico", a quantidade de pessoas chamadas de "desalentadas", ou seja, que perderam a esperança de voltarem ao mercado de trabalho, teremos um resultado próximo de 43 milhões de pessoas. É assustador!

    Além disso, o rendimento médio do trabalhador caiu 1% se compararmos com outubro de 2018.

    A reforma trabalhista não só não gerou novos empregos como estimulou a rápida precarização do mercado de trabalho. Aumenta rapidamente o número de trabalhadores autônomos, por conta própria, sem carteira assinada, fora de qualquer política de proteção social e considerando a "carteira de trabalho verde e amarela", a tendência de precarização tenderá a aumentar e tenderá a cair ainda mais o rendimento médio do trabalhador.

    A lógica é simples: sem renda, não há consumo. Sem consumo não há vendas. Sem vendas não há emprego. Sem emprego não há renda. Sem renda não há consumo...

    E sem governo não há crescimento econômico. Não existe, na história econômica mundial, recente ou não, nenhum caso de crescimento econômico de algum país que tenha sido puxado pela iniciativa privada. O Estado deve, e isso nos mostra a história, puxar o crescimento apesar de todo o discurso ideológico da ineficiência do Estado. E o Estado brasileiro vem perdendo sistematicamente sua capacidade de intervenção na atividade econômica.

    Apesar de tudo, desejo a todos um ótimo ano de 2020 e desejo a mim mesmo que eu esteja errado.

     

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