Classificada em 1º lugar no Enem 2025 entre as escolas estaduais de São Gotardo, a Escola Estadual São Pio X revela que o segredo do bom desempenho não está em uma fórmula mágica, mas em um conjunto de práticas que combinam acolhida, disciplina, trabalho coletivo e participação das famílias. Em entrevista exclusiva ao Jornal Daqui, a diretora Simone Silva abriu as portas da instituição para contar, em detalhes, como a escola construiu esse resultado.
A Escola Estadual São Pio X, localizada no bairro Nossa Senhora de Fátima, alcançou 518,51 pontos na prova objetiva e 723,33 na redação no Enem 2025 — nota classificada como de excelência, bem acima da média nacional de referência, de 512,85 pontos. No ranking estadual, a unidade ocupa a 896ª posição na prova objetiva e a 589ª na redação, entre as 2.338 instituições avaliadas em Minas Gerais, o que coloca a escola entre os 5% melhores classificados do estado.
Mas o que explica esse resultado? Para responder a essa pergunta, o Jornal Daqui conversou com a diretora, que está à frente da escola desde 2023. Na entrevista, ela detalhou a trajetória da instituição, a reforma estrutural que transformou o espaço físico, os diferenciais da metodologia aplicada e o trabalho específico com a redação — o maior desafio das escolas públicas. A diretora também falou sobre a importância da família, do protagonismo dos alunos e da disposição da escola em servir de modelo para outras instituições.
A seguir, os principais assuntos abordados na entrevista
Capacitação dos professores e trabalho coletivo
"Nós temos essa preocupação, porque a escola não é fragmentada", afirma Simone. A primeira providência é chamar todos para participar do processo, desde as meninas da cantina até as da secretaria, os ATBs, os professores, as bibliotecárias, os especialistas e as vice-diretoras.
O trabalho coletivo é pactuado em reuniões mensais, realizadas todo primeiro sábado do mês, quando a equipe faz um estudo coletivo. Embora o Enem e os simulados sejam voltados ao ensino médio, a escola inclui também os professores do sexto ao nono ano. "O resultado é da escola. É um trabalho que começa lá embaixo, na categoria de base, que são os nossos sextos anos", explica.
A diretora reforça o orgulho pela participação das famílias: "As nossas reuniões de pais são lotadas, porque nós mostramos para a família a importância de ela participar desse processo." E completa: "Quando a escola trabalha junto com a família, o resultado não tem que ser um ou outro; tem que ser sucesso mesmo.”
Diretora Simone Silva Spirandelli
Trajetória e relação com a escola
Formada em Ciências Biológicas e Exatas pela Unimontes, em Montes Claros, Simone Silva chegou à cidade após se casar e constituir família. "Sinto-me filha daqui do coração, onde eu consigo realizar o meu trabalho, realizar meus sonhos e criar minha família", afirma.
Sua relação com a educação começou há 25 anos, como professora de biologia e ciências. Na São Pio X, trabalhou com o conteúdo de ciências, do sexto ano ao ensino médio, e passou oito anos na vice-direção, período em que viveu o processo da pandemia. Em 2022, participou do processo de seleção para diretor, com eleição junto à comunidade escolar, e está à frente da escola desde 2023, ao lado das vice-diretoras Liliane, Carla e Carol.
"Essa escola, antes de tudo, minha segunda casa; a gente tem um carinho muito grande pelas famílias e pelos alunos", diz.
Equipe de professores da escola São Pio X
Estrutura: alunos, professores e funcionários
A escola funciona nos três turnos. Pela manhã, são quase 600 alunos do ensino médio; à tarde, 495 alunos do sexto ao nono ano; e há ainda os alunos do noturno. Ao todo, a instituição atende 1.150 alunos, sendo a maior escola de São Gotardo em número de alunos e infraestrutura, e uma das maiores da superintendência de Patos de Minas.
"É uma responsabilidade muito grande, porque é muita gente, muito aluno", destaca a diretora. Ela lembra que, além dos alunos, há as famílias que participam do processo. A escola conta hoje com cerca de 98 funcionários. "Eu me lembro de que, quando assumi, falavam de performance de educação. Eu falei: 'Gente, isso aqui é uma grande empresa'", compara, referindo-se ao desafio diário de gerir uma instituição que atende mais de mil pessoas por dia.
Reação ao 1º lugar no enem
"É uma satisfação muito grande, porque isso é um esforço coletivo, um resultado de um esforço coletivo", afirma Simone. Ela relembra que, quando a equipe assumiu a gestão em 2023, realizou uma grande reforma na escola, que durou cerca de dois anos, com troca de piso, telhado e melhorias nas salas de aula — tudo com os alunos presentes, sem dispensar nenhum dia de aula.
A diretora conta que conseguiu a verba para a reforma após uma reunião em Patos de Minas, quando conversou com o subsecretário sobre o estado precário do prédio, com rachaduras, bebedouros caindo e uma quadra com buracos. Ela o convidou para visitar a escola e, dias depois, recebeu a notícia de que havia conseguido o recurso. "Quando o aluno chega no local, ele percebe que existe um cuidado para recebê-lo, com um ambiente mais atrativo", explica.
Para Simone, o resultado está ligado a esse cuidado: "Ele se sente parte integrante desse processo. E, quando você pertence ao lugar, eu acredito que você quer cuidar daquele lugar. Tanto que nós fizemos essa reforma e hoje não temos nenhum tipo de depredação aqui nessa escola.”
Diferenciais da metodologia
"A gente sabe que é o humano que realmente faz a diferença", afirma a diretora. Depois de cuidar do espaço físico, a escola voltou-se para o pedagógico. O primeiro diferencial citado é a acolhida: a escola acolhe famílias nas reuniões e também os professores e servidores. "Aqui a gente não cuida só do aluno; cuida também de quem cuida, de quem ensina", diz.
Outro pilar é o trabalho coletivo. "A escola não funciona apenas com o professor, nem só com o aluno, nem só com a direção. A gente tem que trabalhar como um conjunto." Além disso, a disciplina é valorizada como essencial: "Tudo na vida a gente tem que ter disciplina. Ele tem que ter horário de estudo, tem que saber que tem um horário para chegar na escola, tem que saber que tem um horário para sair."
A diretora também destaca o cuidado com o aluno que não está indo bem. Esse ouvir e chamar atenção, somado ao esforço coletivo e à participação da família, é o que faz a diferença, segundo ela.
O trabalho com a redação
A redação, que alcançou 723,33 pontos, é tratada como prioridade. Simone conta que, no início da gestão, as avaliações externas eram um problema: "Bastava falar que tinha avaliação que era o motivo de a meninada faltar; podia contar nos dedos quem estava presente na sala." Na primeira avaliação diagnóstica, a frequência não chegou a 80%.
Para reverter esse quadro, a escola passou a fazer a busca ativa e a mostrar ao aluno que ele é o protagonista. Foi criado o conselho de representantes, em que os alunos elegem representantes de cada sala e são ouvidos pela direção. "Eles são os grandes protagonistas. Eles têm que perceber que essa nota foi o que a gente fez, foi mostrar para eles: 'Olha, o resultado é seu'", afirma.
No trabalho específico com a redação, os professores de português trabalham o engajamento, e os alunos escrevem redações desde o primeiro ano do ensino médio. Houve também investimento na biblioteca, com acervo escolhido a partir do gosto dos próprios alunos. "Para a gente formar o leitor, a gente tem que saber qual é o gosto dele, o que vai atraí-lo", explica.
Além disso, todos os professores — de matemática, história, geografia — trabalham a interpretação de textos. Os professores corrigem as redações e dão devolutiva aos alunos. A diretora destaca ainda o papel dos itinerários formativos, o sexto horário do ensino médio: "Ele veio para trabalhar questões da atualidade, como violência, tecnologia, educação, sustentabilidade, para que isso gere pesquisa dentro da sala de aula, discussões, que vão dar o embasamento teórico para esses alunos, ajudar esses alunos, dar bagagem para eles redigirem essas redações.”
Como replicar a experiência em outras escolas
Simone afirma que a escola tem muitos projetos voltados para diversidade e sustentabilidade e se coloca à disposição para fazer intercâmbios com outras instituições. "A Escola São Pio X está de portas abertas para a gente vir, para a gente ir, para a gente combinar esses momentos de interação, principalmente com turmas de segundo e terceiros anos, que são turmas que estão galgando por participação do Enem."
Ela conclui: "A gente se coloca à disposição de todas as escolas do município, até mesmo da superintendência de Patos de Minas. Eu acredito que falta mais mesmo essas interações, às vezes pela questão das demandas do dia a dia, mas eu estou à disposição, estamos abertos a fazer esse intercâmbio, sim, com as outras escolas.”



