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    Sexta, 17 Maio 2019 20:30

    Ricos e pobres: quem lê e escreve mais

    Escrito por Edson Carlos

    Não precisa muita pesquisa para ver que uns têm dinheiro demais e a maioria tem de menos. Segundo os que entendem do assunto, há causas para essa desigualdade.

    Cláudio Moura Castro, economista e especialista em educação, aponta três: a escrita, os livros e a complexidade tecnológica. Confira na revista Veja de março último, num artigo chamado “Conspiração para a pobreza”.

    A primeira – a escrita –, inventada pelos egípcios e sumérios, aperfeiçoada pelos gregos há 3.000 anos, permitiu que o homem se diferenciasse bastante, suponhamos, de uma vaca. Esta vive o aqui-e-agora. Está com fome, busca capim; com sede, água. O mais é remoer sem pressa a vida. Já o ser humano põe no papel (antigamente era papiro, pergaminho) alguns desenhos chamados letras e números e adquire enormes poderes.

    Aí começa a separação entre os que sabem fazer isso e os que não sabem. Basta um gerente escrever os nomes de 1.000 pessoas, com dados de identificação e a indicação de um tanto de dinheiro para cada uma, para ele dominar todas. Assim foi que se desenvolveu a contabilidade, os cálculos matemáticos, e quem estava por dentro desses mistérios ficou rico. Mas não foi só isso.

    Apareceram os filósofos, que passaram a inventar teorias para justificar porque as coisas eram como eram. Uma delas – a de que o poder dos reis e da nobreza – vinha direto de Deus, durou séculos. Só foi abalada de 1.600 para cá. E ainda continua, pois até hoje existem reis e princesas. Mas bem mais modestos do que foram seus avós.

    A segunda causa veio de Guttemberg, que inventou a imprensa. Antes um livro era escrito a mão, demorava, um de cada vez. E era muito caro! Guttemberg barateou bastante, porque imprimiam-se muitos de uma vez só. De repente, quantidade e velocidade permitiram o aparecimento da ciência moderna. Surgiram autores como Copérnico, Galileu, Descartes, muita gente escrevendo e divulgando suas idéias.

    Começou uma briga de vida e morte entre os que sabiam ler e a turma que já estava no poder e não queria mudar. Para eles estava tudo bom. Quem venceu? Os espertos com livros nas mãos, idéias na cabeça e capacidade de comunicação. Derrubaram os reis, cortaram até cabeças e em seu lugar instalaram presidentes e ministros. (Veja no YouTube os iluministas e a Revolução Francesa).

    Chegamos aos nossos tempos.

    Claro que há muitos detalhes que não podem ser explicados num artigo como este. Para informar-se, há hoje recursos enormes com a invenção do computador e da internet. Foi como se Guttemberg se multiplicasse por um milhão. Ou seja: os livros agora estão ao alcance de todos. Se não pode comprar em papel, lê na tela.

    Chegamos à terceira causa de por que cada vez mais uns viram bilionários e a maioria só faz para o gasto. É a complexidade tecnológica. Vamos traduzir em linguagem fácil de entender.

    Antes, para produzir milho, o trabalhador pegava uma enxada, limpava o terreno, tirava a semente no próprio paiol, fazia o buraco, plantava, colhia. Qual a complexidade? Mínima. O mais complicado era produzir a enxada: extrair o ferro, derretê-lo, colocar numa fôrma, levar ao comércio e vender. Agora, vamos considerar hoje. Primeiro que não é mais aquele sistema de cada qual com sua rocinha produzindo milho para fazer pamonha e guardar no paiol o restante. São áreas imensas, com máquinas sofisticadíssimas, e o pessoal que opera tem que saber ler, calcular, cuidar, comunicar. Quantos anos de estudo para produzir essas máquinas e preparar esse pessoal?

    Resultado: quem domina a escrita e a leitura conhece os segredos. Isso explica porque o fazendeiro antigo, que tirava leite na munheca, perdeu o poder para os modernos empresários do agronegócio com suas ordenhas cheirosinhas. Estes lêem e escrevem mais. Tá explicado?

    Entende-se porque é importante acabar com o analfabetismo, inclusive o funcional. O analfabeto funcional é aquele que sabe ler mais ou menos. Não basta. Precisa ler textos mais complicados também. Como é o do próprio Cláudio Moura Castro.

     

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