Em uma época em que o cinema era um luxo distante para as cidades do interior, São Gotardo se destacava como vanguarda cultural. O Cine São Luiz, inaugurado nos anos 1940, não era apenas uma sala de exibições: representava um privilégio raro, uma ponte para o mundo exterior que expandia horizontes, fomentava interações sociais e moldava a formação sociocultural de gerações. Por três décadas, até o início dos anos 1980, o cinema se tornou sinônimo de fascínio e sofisticação para os moradores da cidade.
A história começa com o Cine Serrano, o primeiro cinema da região, aberto em um simples barracão ao lado da Igreja Matriz. Inaugurado na década de 1940, o espaço já atraía um público ávido por novidades. Em 1953, veio a grande mudança: renomeado Cine São Luiz, o cinema foi transferido para a Praça São Sebastião, em um prédio mais moderno e imponente. O nome "São Luiz" evocava imediatamente luxo e qualidade – uma marca nacional associada a "palácios do cinema", com arquitetura refinada e técnica de ponta.
Para os moradores de São Gotardo, ter um cinema próprio era um marco de progresso. Nas décadas de 1950 a 1970, enquanto muitas cidades interioranas dependiam de feiras itinerantes ou rádios para entretenimento, o Cine São Luiz oferecia uma programação variada.

Sobre a agenda de filmes exibidos
Sucessos de bilheteria se alternavam com filmes B, em uma programação para todos os gostos. Bruce Lee, Clint Westwood, Marlin Monroe, Tubarão - e também destaques do cinema nacional como os Trapalhões e Dona flor e seus dois maridos -, desfilavam pelas telas do Cine São Luiz.
A grade de programação era escolhida a partir dos 'pacotes' oferecidos pelas grandes distribuidoras. Cada pacote no leque de opções disponíveis incluía em torno de 15 filmes, entre eles, alguns de sucesso e outros tantos que eram 'empurrados' juntos, como pornochanchada, Faroeste e artes marciais, os chamados filme B. Uma estratégia das grandes distribuidoras de desovar fitas de qualidade duvidosa. Ainda assim, praticamente todo final de semana era possível assistir a um bom filme.
Casa cheia
O cinema era o grande ponto de encontro social, especialmente aos sábados e domingos. Famílias inteiras lotavam a casa, casais marcavam encontros e jovens apostavam suas fichas em um possível namoro. "Era um vetor de encontros", recorda Luiz Sergio Soares, filho do fundador Clarimundo Alves Soares. O alto-falante anunciava as sessões com músicas populares, criando uma atmosfera festiva. Dentro, o cheiro de pipoca – ou "popoca", como se dizia – misturava-se ao ar condicionado improvisado e às risadas coletivas.
Era comum ver garotos trocando olhares com meninas nos assentos escuros, iniciando romances que durariam anos. O Cine São Luiz não vendia apenas ingressos: promovia sonhos, debates pós-filme nas praças e uma visão ampliada do mundo. Para uma cidade do Alto Paranaíba, isolada pelas estradas precárias da época, as telas eram janelas para Hollywood, Hong Kong e o cinema nacional em ascensão.
Recentemente, o filme brasileiro O Agente Secreto prestou uma homenagem ao Cine São Luiz, de Fortaleza, imortalizando sua memória coletiva. Hoje, com o streaming dominando, Luiz Sergio lamenta o fim de uma era. "Meu pai construiu algo maior que um cinema: um espaço de formação", diz ele.
São Gotardo perdeu o Cine São Luiz nos anos 1980, vítima da concorrência de videocassetes e emissoras de TV. Mas as marcas permanecem: histórias de família, primeiros beijos e lições de vida extraídas de fitas em 35mm. Em um interior onde o lazer era escasso, o legado do cinema reforça o orgulho local – prova de que, mesmo pequena, a cidade soube sonhar grande.
Francisco Ferreira (Senhor Hélio) – funcionário do Cine São Luiz

“Nós despachávamos os filmes para o senhor Clarimundo. Era despachar para mandar embora, e também recebíamos os que chegavam da capital. Cada filme vinha em vários rolos.
“Houve uma ocasião em que passou um filme chamado O Direito de Nascer. Nessa época, o cinema ficava tomado de gente; o povo não cabia. As sessões eram cheias. Vinham pessoas da roça, até ônibus lotados, para assistir”. Relembra Senhor Hélio
Irani Alves(Coqueiro) - Projetista

“Trabalhei como Projetista e na bilheteria. Depois que o Senhor Antônio( o porteiro mais longevo do cine São Luiz) adoeceu, eu fui para a portaria.
“Era um tempo antigo, e um tempo que deixou saudade. O povo circulava por ali; no jardim, tudo acontecia. O cinema era a atração. Se queria arrumar namorada, era ali no jardim. A praça vivia cheia.
Depois da missa da noite de domingo, o destino certo era o cinema. O movimento era grande, a fila longa. Aos domingos, havia dois filmes e duas sessões, a primeira e a segunda.
Muita gente comprava o ingresso antes e ficava lá dentro, para não entrar na fila. Sentava-se e assistia à primeira sessão, depois à segunda. O projetor era uma máquina antiga, de carvão. Todo o maquinário era alemão, assim como o som, tudo do tempo antigo.
Trabalhei lá por muitos anos, junto com meu irmão Vander. Antes era é Theo. O Theo foi o recordista. Mas é um tempo que a gente não esquece. O senhor Clarimundo, por exemplo, deixava entrar muita gente sem dinheiro. Bastava chegar, conversar um pouco, e ele deixava passar.”
Crônica
Cine São Luiz
A gente ouvia “Jealousie”, as conversas iram diminuindo, três fortes gongos anunciavam que a sessão ia começar, as luzes iam se apagando: a magia da sétima arte começava, ou melhor, recomeçava!
Antes, nos finais de semana, na rua fechada as jovens moças faziam o “footing”, caminhando em grupos de braços dados, com os rapazes nas duas calçadas. Era o momento de olhares que se transformavam em flertes e início de namoros.
Na esquina da rua Bento Ferreira dos Santos, em frente ao bar do Totõe Bernardo, ficava o Toco com seu carrinho de pipocas a perfumar o lugar.
As filas para comprar ingresso e para entrar dobravam as esquinas nos filmes de maior sucesso. Era um filme a cada dia, aos domingos tinha as matinês com os seriados (lembro-me apenas de “Os tambores de Fumanchu”), duas sessões, às 18h30 e 20h30.
Zico do Botequim ia todos os dias, inclusive na segunda-feira quando se reprisava o filme do sábado. Ficava na primeira cadeira da última fila à direita e deixou a marca de sua cabeça na parede.
No outro extremo, o lugar da sexta cadeira da cadeira da primeira fila era do Sansão, já adulto e grande, sempre limpo e bem arrumado ficava no meio da criançada. Se achasse alguém ocupando sua cadeira, tirava pelo colarinho e se assentava. Nunca pagou e saía dizendo: “O cinema do Mumundo só passa filme de capeta!”
Houve um tempo no qual a renda começou a cair, apesar de a frequência continuar a mesma. Então, José Eustáquio assumiu o controle da entrada e as coisas voltaram à normalidade. Vicente “de borracha” entrava, com a recomendação de não correr, o que seguia até sair do campo visual do Zé e disparar corredor abaixo até as primeiras filas junto da criançada.
As quatrocentas cadeiras ficavam cheias quase sempre. Os maiores sucessos eram os filmes de Chaplin, que teve êxito no cinema mudo e no falado, Os filmes de Tarzan e de faroeste, as comédias da Atlântida e Mazzaropi! Bem Hur, Quo vadis, Spartacus e outros filmes históricos também enchiam a sala.
Quando João Borges encerrou seu cinema, papai, Clarimundo Soares, e José Prados fundaram o Cine Serrano, que teve uma longa vida igual à amizade dos dois, até a chegada da televisão nos anos 60. O cinema teve uma triste sobrevida com as pornochanchadas.
Por um breve período, fui “dono” do Cine São Luiz, o que motivou a sugestão desta crônica pelo Zezé, editor deste jornal, devido à coincidência do nome com o cinema de Recife mostrado em “O Agente Secreto”.
Para terminar, cito um fato ocorrido com Márcio Wagner, meu irmão, que foi assistir um filme no qual uma jovem atriz (Lídia Brondi) toma um banho de chuveiro por volta dos 10 minutos da película. Terminada a sessão das 16h, no Cine Metrópole, ele esperou a sessão das 18h e depois da cena esperada, levantou-se para ir embora. Com ele mais uns 50 marmanjos. Foi uma gargalhada só...
Cada um tem sua lista de melhores filmes. Para mim, o primeiro lugar é de “Casablanca”, de pois, em ordem alfabética: “Ainda estou aqui”, “Matar ou morrer”, “O auto da compadecida”, “O garoto”, “O pagador de promessa” ,”Psicose, ”Tempos modernos”, “Um corpo que cai” e “Cinema Paradiso”!
Luiz Sérgio Soares



